IA no SUS: propostas de candidatos geram dúvidas entre especialistas
Uso de inteligência artificial na triagem e gestão de filas da saúde pública divide opiniões sobre viabilidade, qualidade dos dados e riscos.

Nas eleições de 2026, o uso de inteligência artificial (IA) no Sistema Único de Saúde (SUS) integrou propostas de candidatos de diferentes espectros políticos. A tecnologia é sugerida para triagem, auxílio de diagnósticos e substituição da tradicional fila por ordem de chegada por uma ordem baseada em gravidade e risco clínico.
No entanto, especialistas apontam que a implementação não é simples e esbarra em desafios estruturais. Enquanto defensores destacam o potencial de predição e ampliação de acesso, pesquisadores alertam para limitações de infraestrutura, escassez de dados padronizados e os riscos de falsos negativos em decisões automatizadas.
Desafios na infraestrutura e qualidade dos dados
Para Wagner Meira Jr., professor da UFMG, as propostas são, em alguns casos, futuristas e difíceis de realizar em um mandato de quatro anos. Ele ressalta que mudar a ordem da fila com algoritmos não resolve o problema se a capacidade de atendimento — de profissionais e serviços — continuar a mesma.
Outro obstáculo apontado pelos pesquisadores é a qualidade dos dados do SUS. Segundo o Ministério da Saúde, não existe um número nacional consolidado de pessoas aguardando atendimento, visto que a gestão das filas é descentralizada entre Estados e municípios. Para tentar sanar essa lacuna, o governo publicou em 2025 uma portaria para padronizar o envio de registros à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).
O cardiologista Antonio Ribeiro, da UFMG, reforça que a fragmentação dos sistemas municipais, estaduais e federal é um dos principais entraves. Para ele, o ideal é iniciar por projetos pilotos e específicos, garantindo que os modelos sejam validados e preservem a intervenção e a auditoria humanas.
O debate sobre modelos estrangeiros e soberania de dados
Alguns candidatos citam inspirações internacionais, como a plataforma DoctorSV, adotada pelo governo de El Salvador com tecnologia do Google Cloud. No entanto, especialistas questionam a importação de modelos generalistas que não reflitam a realidade da população brasileira e alertam para os riscos relacionados à soberania e proteção de dados sensíveis de saúde.
Com informações de: BBC Brasil
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