Feminicídios batem novo recorde no Brasil em 2025 com 1.571 vítimas, aponta Anuário da Segurança Pública
O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número desde o início da série histórica. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (23) pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O levantamento revela um crescimento de 4% em relação a 2024, atingindo uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres. Este é o quarto recorde consecutivo registrado pelo país, evidenciando o avanço da violência de gênero mesmo diante da redução de outros crimes violentos.
Violência letal cai, mas feminicídios continuam aumentando
Enquanto o número de feminicídios cresce, os demais indicadores de violência letal apresentaram queda.
Em 2025, o Brasil contabilizou 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVI), redução de 8,2% em comparação ao ano anterior. A taxa caiu para 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a menor desde o início da série histórica.
Segundo o Anuário, o país atingiu antecipadamente a meta nacional de redução dos homicídios prevista para 2027 pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.
Apesar desse avanço, os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades de mortes violentas que cresceram no período.
Especialista alerta para realidade da violência contra mulheres
A coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, afirma que a violência contra mulheres segue uma dinâmica diferente da violência urbana.
“Enquanto os homicídios vêm caindo, as mulheres continuam morrendo por serem mulheres.”
Segundo a pesquisadora, fatores estruturais como desigualdade de gênero, padrões culturais de masculinidade, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção dificultam a interrupção do ciclo de violência doméstica.
Quase metade das mulheres assassinadas morreu por razões de gênero
O estudo mostra que 44,4% de todas as mulheres assassinadas em 2025 foram vítimas de feminicídio, o maior percentual registrado desde 2015, quando o crime passou a fazer parte do Código Penal.
O ano de 2025 também marcou a primeira vigência completa da Lei nº 14.994/2024, que transformou o feminicídio em um crime autônomo, deixando de ser apenas uma qualificadora do homicídio.
De acordo com Juliana Brandão, a mudança legislativa contribuiu para melhorar os registros, mas não explica sozinha o crescimento dos casos.
Ela destaca que outros crimes relacionados à violência de gênero também aumentaram em 2025:
- Perseguição (stalking): alta de 30%;
- Violência psicológica: crescimento de quase 17%.
Tentativas de feminicídio também cresceram
Outro dado preocupante apresentado pelo Anuário é o aumento das tentativas de feminicídio.
Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato, um crescimento de 5,9% em relação ao ano anterior.
Isso significa que, para cada feminicídio consumado, houve 2,7 tentativas, indicando que milhares de mulheres permaneceram em situação de alto risco.
Segundo os pesquisadores, a maioria dessas vítimas escapou da morte apenas por circunstâncias alheias à vontade do agressor.
Estados com maiores taxas de feminicídio
O levantamento aponta que as maiores taxas de feminicídio em 2025 foram registradas em:
- Amapá;
- Mato Grosso;
- Mato Grosso do Sul.
Os dados mostram maior concentração da violência letal contra mulheres nas regiões Norte e Centro-Oeste, evidenciando desigualdades regionais no enfrentamento desse tipo de crime.
Perfil das vítimas de feminicídio
O Anuário revela que o feminicídio atinge principalmente mulheres negras e em idade economicamente ativa.
Entre as vítimas registradas em 2025:
- 65,1% eram mulheres negras;
- 56,5% tinham entre 25 e 44 anos;
- 62,5% foram assassinadas dentro da própria residência.
Os números reforçam que a violência doméstica continua sendo o principal cenário desse tipo de crime.
Quem são os autores dos feminicídios
Nos casos em que a autoria foi identificada, o levantamento mostra que:
- 96,4% dos autores eram homens;
- 60,9% eram companheiros ou parceiros da vítima;
- 18,9% eram ex-companheiros;
- 12,1% eram familiares.
Os dados demonstram que, na maioria das ocorrências, o agressor fazia parte do círculo de convivência da mulher.
Medidas protetivas ainda enfrentam desafios
O estudo também revela que o feminicídio costuma ser precedido por uma sequência de episódios de violência.
Para cada feminicídio registrado em 2025, houve em média:
- 502 registros de ameaça;
- 182 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica;
- 84 descumprimentos de medidas protetivas;
- 79 registros de perseguição (stalking);
- 39 casos de violência psicológica.
Entre os estados que forneceram dados ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 70 mulheres foram assassinadas mesmo possuindo medida protetiva de urgência em vigor, o equivalente a uma em cada nove vítimas.
Além disso, o Brasil registrou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas, aumento de 16,7% em comparação com o ano anterior.
Para Juliana Brandão, esse cenário evidencia limitações na capacidade do Estado de garantir a efetividade das decisões judiciais e impedir que situações de violência evoluam para o feminicídio.
Crescimento dos feminicídios preocupa especialistas
Os pesquisadores concluem que os dados demonstram que políticas focadas apenas na repressão não são suficientes para reduzir a violência de gênero.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o enfrentamento ao feminicídio exige investimentos em prevenção, identificação precoce de situações de risco, fortalecimento da rede de proteção às mulheres e monitoramento do cumprimento das medidas protetivas, com o objetivo de evitar que episódios de violência doméstica terminem em assassinatos.
Veja a matéria original em: Cnn Brasil




